quinta-feira, 17 de março de 2011

Estação de Perdas

Há horas em nossa vida que somos tomados por 
uma enorme sensação de inutilidade, de vazio... 
Questionamos o porquê de nossa existência e 
nada parece fazer sentido. 
Concentramos nossa atenção no lado mais cruel 
da vida, aquele que é implacável e a todos afeta 
indistintamente: As perdas do ser humano. 

Ao nascer, perdemos o aconchego , 
a segurança e a proteção do útero. 
Estamos, a partir de então, por nossa conta. 
Sozinhos. 
Começamos a vida em perda e nela continuamos. 
Paradoxalmente, no momento em que perdemos algo, 
outras possibilidades nos surgem. 
Ao perdermos o aconchego do útero, 
ganhamos os braços do mundo. 
Ele nos acolhe: nos encanta e nos assusta, 
nos eleva e nos destrói... 
E continuamos a perder...e seguimos a ganhar. 
Perdemos primeiro a inocência da infância. 
A confiança absoluta na mão que segura nossa mão, 
a coragem de andar na bicicleta sem rodinhas 
por que alguém ao nosso lado nos assegura 
que não nos deixará cair... 
E ao perdê-la, adquirimos a capacidade de questionar. 
Por que? Perguntamos a todos e de tudo... 
Abrimos portas para um novo mundo e fechamos janelas, 
irremediavelmente deixadas para trás... 

Estamos crescendo. 
Nascer, 
crescer, 
adolescer, 
amadurecer, 
envelhecer, 
morrer, 
renascer (?)... 

Vamos perdendo aos poucos alguns 
direitos e conquistando outros. 
Perdemos o direito de poder chorar bem 
alto, aos gritos mesmo, quando algo 
nos é tomado contra a vontade. 
Perdemos o direito de dizer absolutamente 
tudo que nos passa pela cabeça sem 
medo de causar melindres. 
Assim, se nossa tia às vezes nos parece gorda 
tememos dizer-lhe isso. 

Receamos dar risadas escandalosamente da 
bermuda ridícula do vizinho ou puxar as 
pelanquinhas do braço da vó com a 
maior naturalidade do mundo e ainda 
falar bem alto sobre o assunto. 
Estamos crescidos e nos ensinam que não 
devemos ser tão sinceros. 
E aprendemos.. 
E vamos adolescendo... 
ganhamos peso, 
ganhamos, seios, 
ganhamos pelos, 
ganhamos altura.... 
ganhamos o mundo. 
Neste ponto, vivemos em grande conflito. 
O mundo todo nos parece inadequado 
aos nossos sonhos... 
ah! os sonhos!!! 
Ganhamos muitos sonhos. 
Sonhamos dormindo, 
sonhamos acordados, 
sonhamos o tempo todo. 

Aí de repente, caímos na real! 
Estamos amadurecendo...todos nos admiram. 
Tornamo-nos equilibrados, contidos, ponderados. 
Perdemos a espontaneidade. 
Passamos a utilizar o raciocínio, a razão acima de tudo. 
Mas não é justamente essa a condição que nos coloca acima (?) dos outros animais? 
A racionalidade, a capacidade de organizar nossas ações de modo lógico e racionalmente planejado? (???) 

E continuamos amadurecendo.... 
ganhamos um carro novo, 
um companheiro, ganhamos um diploma. 
E desgraçadamente perdemos o direito de gargalhar, 
de andar descalço, tomar banho de chuva, 
lamber os dedos e soltar pum sem querer... 
Mas perdemos peso!!! 
Já não pulamos mais no pescoço de quem amamos 
e tascamos - lhe aquele beijo estalado... 
mas apertamos as mãos de todos, 
ganhamos novos amigos, 
ganhamos um bom salário, 
ganhamos reconhecimento, 
honrarias, 
títulos honorários e 
a chave da cidade... 
E assim, vamos ganhando tempo.... 
enquanto envelhecemos. 

De repente percebemos que ganhamos algumas rugas, 
algumas dores nas costas (ou nas pernas), 
ganhamos celulite, estrias, ganhamos peso... 
e perdemos cabelos. 
Nos damos conta que perdemos 
também o brilho no olhar, 
esquecemos os nossos sonhos, 
deixamos de sorrir... 
perdemos a esperança. 
Estamos envelhecendo. 

Não podemos deixar pra fazer algo 
quando estivermos morrendo... 
afinal, quem nos garante que haverá mesmo 
um renascer, exceto aquele que se faz em vida, 
pelo perdão a si próprio, pelo compreender que 
as perdas fazem parte, mas que apesar delas, 
o sol continua brilhando e felizmente 
chove de vez em quando, 
que a primavera sempre chega após o inverno, 
que necessita do outono que o antecede... 

Que a gente cresça e não envelheça simplesmente... 
Que tenhamos dores nas costas e alguém que as massageie... 
Que tenhamos rugas e boas lembranças... 
Que tenhamos juízo mas mantenhamos o bom humor 
e um pouco de ousadia... 
Que sejamos racionais, mas lutemos por nossos sonhos... 
E, principalmente, que não digamos apenas eu te amo, 
mas ajamos de modo que aqueles a quem amamos, 
sintam-se amados mais do que saibam-se amados. 

Afinal, o que é o tempo?

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